Eu realmente não acredito nessa ideia de que existe algo ou alguém que regula o Universo. Mas,dependendo do meu humor,às vezes a ideia de que esse elemento regulador existe,me odeia e faz o possível e impossível para me prejudicar,ronda a minha cabeça e até faz um pouco de sentido durante uma fração de segundo. Isso acontece,por exemplo,quando eu visualizo a realidade da minha vida: pobre,sem talento algum e,o pior de tudo,sem nenhuma identificação específica com nenhum grupo. Porque até os dois primeiros elementos são digeríveis desde que o terceiro exista.
Eu podia ser pobre,sem talento algum e ser,vejamos,dono de um sobrenome tradicional de alguma dessas famílias falidas. Minha realidade financeira não seria muito diferente,mas pelo menos eu faria parte de um grupo de pequenos idiotas metidos a fodões,também portadores de sobrenomes outrora respeitados,com o qual me reuniria afim de torcer pela queda das outras famílias tradicionais,maldizer os neo-ricos,esses desgraçados favelados que ficaram ricos depois de fazer um curso técnico,conseguir um empego no pólo petroquímico e investir bem os altos salários que recebem em troca de fazerem um trabalho um pouco arriscado,e,claro,xingar os fodidos que andam pela cidade com roupas da moda para ostentar uma realidade financeira inexistente;ostentação essa,aliás,que só lhes é permitida graças ao contrabando e a aprimoração da arte de falsificar pelos paraguaios,coreanos e chineses.
Ou então eu podia ser um desses instrumentistas medíocres,que aprendeu a tocar na marra e fica se gabando por aí porque faz parte de uma bandinha de rock. Veja bem,eu saliento,um desses instrumentistas medíocres,nada de muito talento ou muita virtuosidade. Isso me traria certos problemas,mas pelo menos eu beberia muito e me sentiria feliz no mínimo duas vezes por semana. Isso sem contar com as groupies,o sexo casual e irresponsável e as ocasionais trocas de murros com metaleiros. Dispenso a parte da possível morte prematura,overdoses e comas alcólicos,o intuito deste post é demonstrar o quaõ miserável e desprovida de sentido é a minha existência,então ignoremos os contras das possibilidades por mim citadas.
Também há uma longínqua e remota hipótese que me apareceu agora,afinal nada é impossível. Eu podia muito bem ser um desses pseudointelectualóides de merda,que fala cinco idiomas,tem em casa toda a obra dos principais filósofos da antiguidade e da modernidade,que brada aos quatro ventos contra a sociedade contemporânea e,ao mesmo tempo,não se imagina vivendo sem a Internet. Daqueles bem chatos,metidos a marxistas,que se acostumou a fazer sexo uma vez por ano,preferencialmente após algum encontro de alguma congregação de intelectualóides,como a União Nacional dos Estudantes ou a União da Juventude Socialista,com alguma daquelas gurias que acabou de entrar na puberdade e foi levada pra lá por algum outro pseudomilitante que abandonou-a depois de uma rapidinha ou com alguma militante que está fora de si devido a grande quantidade de ____________ [insira no espaço o nome da droga ilícita que lhe soar melhor] que ingeriu.
Uma outra,não tão longínqua e remota,era a de eu ser um negro,ativista da causa negra,defensor das cotas raciais,filho de santo e o caralho a quatro. Eu poderia ser um líder de algum movimento ou não,mas iria,com certeza,ser alvo da admiração de algumas pessoas. Iria transformar toda e qualquer discussão a respeito da realidade do negro no Brasil em um discurso inflamado sobre a história de exploração e descriminação dos mesmos durante a história e de como,por isso,a cultura africana deve ser respeitada e amplamente divulgada. Pelo menos,a essa altura da vida,eu não estaria me sacrificando indo a um curso pré-vestibular pois já teria ingressado na universidade federal através das cotas.
Mas não. Eu sou pobre,não tenho talento algum e não faço parte de nenhum grupo étnico,ideológico ou financeiro. E,nesse momento,eu realmente gostaria de acreditar em deus. Pelo menos eu teria a quem culpar.